Cidades Mortas
Cidades Mortas (1919), de Monteiro Lobato, é um conjunto de crônicas e contos que, em tom irônico, retrata o cenário decadente do Vale do Paraíba paulista pós-ciclo do café. Este é o segundo livro de contos do autor; o primeiro é Urupês (1918), que tem um tom mais trágico. Essas e outras obras foram escritas após o regresso do autor ao Vale depois de se formar em Direito na capital. Insatisfeito com a vida de promotor em Areias (SP) e com os tantos empreendimentos fracassados, Lobato assume a fazenda que foi herdada de seu avô, o Visconde de Tremembé, na cidade atualmente conhecida como Monteiro Lobato.
Foi nessa fazenda que Lobato idealizou o que se tornaria as aventuras do Sítio do Picapau Amarelo. Diferentemente do carinho com o qual o autor descreve o cenário bucólico do Sítio, ele não é tão gentil em Cidades Mortas. Talvez por ser mais jovem, talvez pelos empreendimentos fracassados, Lobato descreve as cidades e a sociedade vale-paraibana com certo desprezo.
É fato que o fim do ciclo do café gerou uma crise imensa na economia da região, congelando cidades no tempo até os dias atuais. Outras se desenvolveram com a chegada da indústria. A cidade onde vivo, famosa pelo nome imenso — Pindamonhangaba — é o que se chama de cidade média. A industrialização, durante a segunda metade do século passado, trouxe um boom econômico e populacional ao pacato município. Com isso, muito se perdeu.
Acabaram as congadas, as festas de igreja, os blocos carnavalescos e as escolas de samba tradicionais; o cotidiano tranquilo; as ruas com pouco movimento. Os antigos casarões foram quase todos demolidos. É possível contar nos dedos os que sobraram. As ruas foram alargadas, as calçadas, espremidas, e o cotidiano, modificado.
Porém, outros hábitos permaneceram. A vida aqui continua pacata, na medida do possível. Não existe vida noturna, e qualquer tentativa nesse sentido enfrenta ou o desinteresse da população em geral ou a severidade das forças policiais. A política também teve poucas mudanças, inclusive de nomes. Os velhos coronéis, ainda ligados à agropecuária, continuam mandando e desmandando na cidade, além de serem donos de metade dela.
A feira livre e o velho mercado continuam sendo os principais locais para o comércio, principalmente de vegetais e comidas típicas, e para encontrar velhos conhecidos. Até a pandemia, a cidade contava com velhos bondes como transporte público para bairros distantes da área rural. A Estrada de Ferro Campos do Jordão deverá ser concedida à iniciativa privada, no entanto, infelizmente, todo o trecho em Pinda (como chamamos a cidade aqui — é para facilitar) não só não foi contemplado como será totalmente desativado e modificado. O que faz sentido com a roupagem moderna que a cidade tenta imprimir para si mesma, mesmo que, na realidade, seja triste ver mais um patrimônio histórico ir embora.
Mas não são todas as cidades que foram banhadas pelo progresso. Muito pelo contrário: a maioria das cidades permaneceu pequena e “morta”, da forma como Lobato descreveu. Somente agora um novo ciclo econômico deu nova vida a essas cidades: o turismo. O cotidiano nada agradável da cidade grande faz com que seus moradores busquem desesperadamente ao menos passar alguns dias em uma dessas “freguesias”, como chamam os portugueses.
A grande reviravolta é que o fato de estarem “mortas” é justamente o que as torna atraentes. Seus casarões não foram demolidos, seu cotidiano não foi modificado, as ruas não foram alargadas, mal há carros. Esse cenário é um paraíso para os que ficam horas diariamente presos no trânsito da capital.
Agora essas cidades estão inundadas de turistas. Os casarões foram reformados. Surgem hotéis, hostels, pousadas e casas para alugar. As comidas típicas foram industrializadas para atender à alta demanda, e as festas locais, antes pequenas, tornaram-se grandes atrações e chamarizes para o turismo. Aos poucos, a população dessas cidades vai sendo empurrada para fora — é preciso abrir espaço para abrigar mais turistas.
Mas, apesar de todas as dificuldades, tanto nas cidades médias quanto nas pequenas, a população tenta ao máximo fazer a vida nelas a mais agradável possível. Apesar dos desafios trazidos pelo progresso, o povo continua cordial e generoso como sempre, com suas limitações, claro.
Trabalhei por um tempo em um tradicional jornal de Pinda. Por questões políticas, o jornal era bastante comunitário. E que comunidade. Um povo bom, interessado em produzir cultura própria, em viver a cidade como ela é. No fundo, quem faz a cidade não é o café, o engenho, a indústria ou o turismo, e sim o povo. Talvez Monteiro Lobato, por ter herdado a nobreza de seu avô, não conseguisse enxergar todo esse valor na população comum. Talvez essas cidades nunca tenham estado mortas, mas, sim, criado um novo modo de viver.
Boca do Povo são Palavras de Amor
Uma coisa que esse povo faz muito bem são suas festas. No geral, são feitas por toda a comunidade e para a comunidade. As festas têm um carisma especial pela tradição preservada pela falta de desenvolvimento das cidades. Como não se criaram hábitos novos, mantiveram-se os antigos.
Muito se fala das quermesses dessas cidades, sejam as de junho ou em outras datas mais regionais. As quermesses são feiras com comidas típicas, parquinhos de brinquedos alugados e shows, que quase sempre são em honra da autoridade máxima do cotidiano político interiorano: o prefeito. Às vezes, os agradecimentos e elogios, sempre numerosos, são em honra a algum deputado ou outro político de maior relevância da região que tenha patrocinado a festa ou esteja presente.
Mas não é sobre as quermesses que quero falar. Como estamos em fevereiro, nada mais justo que tratar do tão subestimado Carnaval do interior.
Como disse acima, o baixo desenvolvimento das cidades impediu que novos hábitos fossem introduzidos à população, o que resultou na permanência de velhas tradições. Nas grandes cidades, popularizaram-se os tais “megablocos”, com multidões para ver grandes estrelas da música, algumas até do exterior. Mais recentemente, o encontro de dois desses megablocos gerou uma cena quase apocalíptica em São Paulo: pessoas amontoadas, pisoteadas, sendo empurradas e espremidas umas pelas outras.
Apesar da megalomania dos prefeitos em ter sempre o maior carnaval da região, no interior essa cena seria impossível. Raríssimos são os cantores de fora que vêm para essas cidades — estrangeiros, então, esqueça. Volta e meia algum espertinho do poder público resolve “modernizar” o Carnaval, trazendo artistas de segunda classe do cenário nacional e virando as costas aos costumes populares. A resposta é imediata: rejeição.
Na minha cidade, este ano, o Carnaval foi drasticamente modificado, muito por influência da polícia, que sempre prefere “evitar a fadiga”. Houve também a vontade de fazer uma festa mais ambiciosa, com show de um cantor famoso da Bahia. O custo dessa ambição veio alto: os blocos da cidade teriam orçamento e estrutura reduzidos e, além disso, a notícia que abalou a cidade — o Bloco Juca Teles não viria mais.
A população reagiu de uma forma que, confesso, me surpreendeu. Todos os blocos da cidade, mesmo os menores ou mais novos, lotaram totalmente. O centro voltou a ferver como há anos não fervia, enquanto o show do tal cantor teve público mediano.
O que muitos não entendem é que o “charme” está no fato de que, no interior, ainda persiste aquele carnaval antigo de marchinhas e bonecões. Os foliões seguem os blocos pelas ruas estreitas do centro. A Igreja Matriz fecha suas portas, porém seus santos na fachada abençoam os que passam. Do alto dos velhos sobrados, as pessoas assistem aos desfiles e jogam água nos foliões que sofrem com o calor típico da época.
Saio todos os anos na rua, desde criança. Meu pai, veterano de tantos carnavais passados, me levava no ombro atrás do trio elétrico. Não percorríamos o trajeto todo, apenas o suficiente para chegar à casa dos meus avós, onde ele certamente ia tomar cerveja com minha tia enquanto eu comia algum doce.
Em algum momento da adolescência, rebelei-me contra o carnaval. Acreditava ser superior ao gosto popular e achava que aquilo tudo se tratava de “pão e circo”. Porém, após a pandemia, não teve jeito: a rua me chamou novamente.
O primeiro Carnaval após a pandemia foi um marco, pois choveu muito, a ponto de alagar partes da minha cidade (o que é raro). Alguns consideraram que a intempérie veio em boa hora, pois, como foi o primeiro carnaval depois de três anos, a chuva esfriou os ânimos efervescentes dos foliões, que ficaram trancados em casa nas edições anteriores da festa. O dia em que mais choveu foi o sábado de Carnaval, quando tradicionalmente passava o Juca Teles na cidade.
Como viver sentindo a passagem do tempo?
Fundado em 1983 por Benito Campos, o bloco Juca Teles homenageia Benedito de Souza Pinto, oficial de justiça e poeta local que se tornou personagem folclórico de São Luiz do Paraitinga (SP).
O Carnaval de São Luiz merece um capítulo à parte. Por 30 anos, a festa foi proibida na cidade. O pároco foi o responsável: fez uma profecia segundo a qual, em quem brincasse o Carnaval, nasceria chifres e rabo. Com o tempo, o povo foi criando coragem para voltar à folia, e a demanda reprimida gerou um dos melhores carnavais do país.
A cidade, como muitas outras da região, parou no tempo após o ciclo do café e só teve sua economia reacendida com o turismo que, no caso de São Luiz, é focado no Carnaval. Em 2010, uma enchente do rio Paraitinga destruiu a cidade. Casarões históricos e igrejas, incluindo a Matriz, desabaram completamente.
A cidade teve de ser reconstruída, e o Carnaval foi novamente interrompido. Os grandes blocos, como o Juca Teles, o Barbosa e a Maricota, expandiram-se para outras cidades da região, enquanto, em São Luiz, o tradicional trajeto dos blocos e troças foi transferido para fora do Centro Histórico.
Somente este ano, 16 anos após a enchente, os blocos voltaram a percorrer as ruas da “cidade velha”. A festa voltou ao local de onde nunca deveria ter saído. O Juca Teles voltou a cantar para as casas coloridas, de janelas voltadas para a rua, que se tornam camarotes enquanto as vias são tomadas pelos foliões.
À frente da banda, um personagem — que acredito ser uma encarnação do próprio Juca Teles — declama estes versos, entoados em dueto com o público, que trazem uma curiosa reflexão filosófica sobre a festa e a vida:
“Hoje estamos aqui para convidá-los A participarem das festividades de Momo Perguntamos, perguntamos Como viver sentindo a passagem do tempo? Do céu Do purgatório E do inferno Ninguém, ninguém escapa Sabem por quê? Porque hoje é Carnaval!”
Essa frase me encanta: como viver sentindo a passagem do tempo?
Como não sabemos nada sobre a vida — e é a primeira vez de todos nós neste barco —, como saber se estamos vivendo certo? E se estivermos vivendo errado esse tempo todo? Quanto tempo perdido, investido em besteiras. E agora? Como recuperar?
“Como viver sentindo a passagem do tempo?”, pergunta o poeta fantasiado ao público vestido de cor. A resposta é muito simples: não sabemos, e não há muito o que fazer a respeito. O que nos resta é comemorar a vida e aproveitar o momento, o presente. E que dia é hoje mesmo? Ah, é, me lembrei. Hoje é Carnaval!



